GRAMÁTICA E LINGUAGEM
Apesar de ser a Lingüística disciplina obrigatória nos Cursos de Letras, e mesmo nos CLE’s (Curso de Licenciatura Específica - Língua Portuguesa), pouco se tem estudado em termos de lingüística aplicada, aplicada ao ensino da língua. A Lingüística Aplicada é a área de pesquisa que está diretamente relacionada à resolução de problemas práticos na realidade, a lingüística das sociedades. É necessário esclarecer que quando falo de Lingüística Aplicada, não estou me referindo à aplicação das teorias lingüística. Refiro-me à busca de soluções para problemas de caráter prático que venham a surgir na linguagem. Esta é uma disciplina que tem a praticidade como principal papel.
Então escreve Maria Helena de Moura Neves, no texto Um personagem revelado:
- “Saber responder que o sujeito oculto da oração “andou de bicicleta” é “ele” ou “ela” não significa saber nada sobre língua ou linguagem (Ano 9-nº109).Vou escrever para aqueles que, em uma aula de gramática, já tiveram a tarefa de encontrar esse sujeito que alguém, não se sabe por quê, “ocultou”. Encontrado um pronome pessoal (eu, ele) que volte a ocupar seu lugar junto ao verbo, fica considerado que se aprendeu tudo o que se tinha de aprender sobre “sujeito oculto”.
O que faço – escreve Neves - não é uma crítica, nem à denominação da entidade nem aos professores que cumprem esse ritual. Apenas abro uma reflexão sobre os procedimentos tradicionais de tratamento da gramática na escola.
É normal que qualquer pessoa considere que uma entidade rotulada como “sujeito oculto” tenha as propriedades significadas nessa expressão. Aí poderíamos até cobrar que “sujeito não-expresso” seria um nome mais exato, mas não é o nome que tem levado um trabalho tão mecânico e ineficiente. Então, mantenhamos o rótulo e vamos à essência. Porque, de fato, saber responder que o sujeito oculto da oração “andou de bicicleta” é “ele” ou “ela” não significa saber nada sobre língua ou linguagem.
Em primeiro lugar, “ocultar”, ou não, o sujeito (ou qualquer outro termo “ocultável”) não é nenhum joguinho ativado para que alguém consiga encontrar a peça faltante e se sinta vencedor. O jogo da linguagem é alguma coisa que faz parte de tudo o que as pessoas fazem na vida e da vida, de como elas se apresentam, pedem e dão, definem os outros e se definem, modificam os outros e se definem, modificam os outros e se modificam, enfim, cada peça do jogo é essencial no todo da interação e da co-participação, e, por isso, a movimentação de cada peça é sempre uma escolha. Aqui n nosso caso: deixar um sujeito não-expresso, colocar como sujeito um sintagma nominal menino), ou um pronome (ele), tudo representa escolha, e sempre com razões e conseqüências.
Lobato e a rã
Vamos a um texto, a fábula de Monteiro Lobato A Rã e o Boi, que assim se inicia:
Tomavam sol à beira de um brejo uma rã e uma saracura. Nisto chegou um boi, que vinha para o bebedouro.
Nesse primeiro parágrafo introduziram-se as personagens, como ocorre na estrutura canônica das fábulas. Trata-se de um ponto em que é necessária a identificação da natureza das personagens que se alterarão na seqüência das falas subseqüentes, e, alternando-se na fabulação:
- Quer ver, disse a rã, como fico do tamanho deste animal?
- Impossível, rãzinha. Cada qual como Deus o fez.
- Pois olhe lá! Retorquiu a rã estufando-se toda. Não estou “quasi” igual a ele?
- Capaz! Falta muito, amiga.
A rã estufou-se mais um bocado.
- E agora?
- Longe ainda!...
A rã fez novo esforço.
- E agora?
- Que esperança!...
A alternância da fala e das ações das personagens é percorrida com facilidade pelo leitor, porque Lobato repete o sujeito a rã quatro vezes. Servindo ao sentido da peça, ele pretere a saracura, só usando esse substantivo quando apresenta a situação, e nunca o retomando durante o texto. Ora, a saracura (embora pressuposta como invejável, tanto que a rã quer chegar a ser como ela) é personagem secundária, coadjuvante, de tal modo que ela não entra nem no título ou no desfecho, pois é à rã que o boi traz a sua sentença: Quem nasce para dez réis não chega a vintém.
Antes dessa “moral” da fábula, há ainda dois últimos parágrafos que se iniciam, respectivamente, com os sujeitos a rã e o boi, as duas personagens que dão título à fábula e formam o seu eixo:
A rã, concentrando todas as forças, engoliu mais ar e foi-se estufando, estufando, até que, plaf!
O boi, que tinha acabado de beber, lançou um olhar de filósofo sobre a rã moribunda e disse:
- Quem nasce para dez réis não chega a vintém.
Por outro lado, em nenhum momento é usado o expediente de “ocultar” o sujeito nem é usado o pronome pessoal como sujeito. Em alguns pontos, a forma “ela”, ou a ausência de qualquer forma (sujeito oculto), levaria ao perigo de mais de uma interpretação. Em outros pontos seria mais evidente a referência à rã, mas de algum modo a leitura estaria perturbada, porque a saracura continuaria candidata a preencher o lugar.
Não só o sujeito se oculta
A tradição gramatical descarta, mas não apenas o sujeito que se “oculta”, e há sempre uma determinação discursivo-textual no modo de preenchimento dos termos que se constroem com um verbo. Estudos feitos com diversas línguas, inclusive com o português, mostraram que, em orações que têm objeto direto, é raro que os dois termos, sujeito e complemento, sejam representados por um sintagma nominal, e isso porque ao fluxo formativo do discurso não convém que se introduzam dois elementos “novos” simultaneamente.
Além disso, existindo esses dois termos em uma mesma oração (o que não é, no geral, o caso dessa fábula), é muito mais freqüente que o sujeito, e não o objeto direto, apareça representado por pronome pessoal, porque geralmente o sujeito é um elemento já dado ou conhecido no texto, e o objeto direto traz a informação nova. É importante, portanto, que haja uma “descrição” desse elemento que é a novidade, descrição de que dá conta um substantivo, nunca um pronome pessoal. Trata-se, pois, de escolhas pragmáticas de padrões sintáticos, as quais dependem do fluxo de informação no discurso. Nas construções transitivas, há uma pressão da continuidade tópica do discurso, que leva ä manutenção de protagonistas, o que dispensa novas menções com núcleo substantivo ns sujeitos, mas não nos objetos diretos, mais variados, porque mais freqüentemente introdutores de elementos novos. Mas nada disso pode ser oferecido em aulas rituais de gramática, como se tudo na produção dos enunciados fossem fórmulas prontas. Na nossa fábula, por exemplo, os sujeitos se referem quase exclusivamente à rã e ao boi, e, entretanto, não há nenhum “sujeito oculto” ou sujeito pronominal. Lobato insistiu em sintagmas nominais, e isso não é pobreza, como poderia concluir um leitor desavisado. Pelo contrário, há evidente obtenção de efeitos de sentido dirigida por boas escolhas: em primeiro lugar, o padrão que serviu em geral à nossa narrativa não foi o de orações com objeto direto (aquelas em que a eficiência provada é de sintagmas nominais como complemento) e, em segundo lugar, fica evidente que determinações do todo do texto dirigiram as escolhas.
O que vale, portanto, não é sair à caça de formas “ocultas”, mas entender e sentir que foi que se conseguiu, no texto, “ocultando”- ou não – essas formas.
Em última análise, lendo o que escreveu Maria Helena, verificamos que há uma necessidade premente de um estudo aprofundado das teorias do discurso, tão bem escritas por Baktin e consequentemente da disciplina Lingüística Aplicada.
Profº Jorge Luiz Malkomes Muniz
Professor da UVA
Então escreve Maria Helena de Moura Neves, no texto Um personagem revelado:
- “Saber responder que o sujeito oculto da oração “andou de bicicleta” é “ele” ou “ela” não significa saber nada sobre língua ou linguagem (Ano 9-nº109).Vou escrever para aqueles que, em uma aula de gramática, já tiveram a tarefa de encontrar esse sujeito que alguém, não se sabe por quê, “ocultou”. Encontrado um pronome pessoal (eu, ele) que volte a ocupar seu lugar junto ao verbo, fica considerado que se aprendeu tudo o que se tinha de aprender sobre “sujeito oculto”.
O que faço – escreve Neves - não é uma crítica, nem à denominação da entidade nem aos professores que cumprem esse ritual. Apenas abro uma reflexão sobre os procedimentos tradicionais de tratamento da gramática na escola.
É normal que qualquer pessoa considere que uma entidade rotulada como “sujeito oculto” tenha as propriedades significadas nessa expressão. Aí poderíamos até cobrar que “sujeito não-expresso” seria um nome mais exato, mas não é o nome que tem levado um trabalho tão mecânico e ineficiente. Então, mantenhamos o rótulo e vamos à essência. Porque, de fato, saber responder que o sujeito oculto da oração “andou de bicicleta” é “ele” ou “ela” não significa saber nada sobre língua ou linguagem.
Em primeiro lugar, “ocultar”, ou não, o sujeito (ou qualquer outro termo “ocultável”) não é nenhum joguinho ativado para que alguém consiga encontrar a peça faltante e se sinta vencedor. O jogo da linguagem é alguma coisa que faz parte de tudo o que as pessoas fazem na vida e da vida, de como elas se apresentam, pedem e dão, definem os outros e se definem, modificam os outros e se definem, modificam os outros e se modificam, enfim, cada peça do jogo é essencial no todo da interação e da co-participação, e, por isso, a movimentação de cada peça é sempre uma escolha. Aqui n nosso caso: deixar um sujeito não-expresso, colocar como sujeito um sintagma nominal menino), ou um pronome (ele), tudo representa escolha, e sempre com razões e conseqüências.
Lobato e a rã
Vamos a um texto, a fábula de Monteiro Lobato A Rã e o Boi, que assim se inicia:
Tomavam sol à beira de um brejo uma rã e uma saracura. Nisto chegou um boi, que vinha para o bebedouro.
Nesse primeiro parágrafo introduziram-se as personagens, como ocorre na estrutura canônica das fábulas. Trata-se de um ponto em que é necessária a identificação da natureza das personagens que se alterarão na seqüência das falas subseqüentes, e, alternando-se na fabulação:
- Quer ver, disse a rã, como fico do tamanho deste animal?
- Impossível, rãzinha. Cada qual como Deus o fez.
- Pois olhe lá! Retorquiu a rã estufando-se toda. Não estou “quasi” igual a ele?
- Capaz! Falta muito, amiga.
A rã estufou-se mais um bocado.
- E agora?
- Longe ainda!...
A rã fez novo esforço.
- E agora?
- Que esperança!...
A alternância da fala e das ações das personagens é percorrida com facilidade pelo leitor, porque Lobato repete o sujeito a rã quatro vezes. Servindo ao sentido da peça, ele pretere a saracura, só usando esse substantivo quando apresenta a situação, e nunca o retomando durante o texto. Ora, a saracura (embora pressuposta como invejável, tanto que a rã quer chegar a ser como ela) é personagem secundária, coadjuvante, de tal modo que ela não entra nem no título ou no desfecho, pois é à rã que o boi traz a sua sentença: Quem nasce para dez réis não chega a vintém.
Antes dessa “moral” da fábula, há ainda dois últimos parágrafos que se iniciam, respectivamente, com os sujeitos a rã e o boi, as duas personagens que dão título à fábula e formam o seu eixo:
A rã, concentrando todas as forças, engoliu mais ar e foi-se estufando, estufando, até que, plaf!
O boi, que tinha acabado de beber, lançou um olhar de filósofo sobre a rã moribunda e disse:
- Quem nasce para dez réis não chega a vintém.
Por outro lado, em nenhum momento é usado o expediente de “ocultar” o sujeito nem é usado o pronome pessoal como sujeito. Em alguns pontos, a forma “ela”, ou a ausência de qualquer forma (sujeito oculto), levaria ao perigo de mais de uma interpretação. Em outros pontos seria mais evidente a referência à rã, mas de algum modo a leitura estaria perturbada, porque a saracura continuaria candidata a preencher o lugar.
Não só o sujeito se oculta
A tradição gramatical descarta, mas não apenas o sujeito que se “oculta”, e há sempre uma determinação discursivo-textual no modo de preenchimento dos termos que se constroem com um verbo. Estudos feitos com diversas línguas, inclusive com o português, mostraram que, em orações que têm objeto direto, é raro que os dois termos, sujeito e complemento, sejam representados por um sintagma nominal, e isso porque ao fluxo formativo do discurso não convém que se introduzam dois elementos “novos” simultaneamente.
Além disso, existindo esses dois termos em uma mesma oração (o que não é, no geral, o caso dessa fábula), é muito mais freqüente que o sujeito, e não o objeto direto, apareça representado por pronome pessoal, porque geralmente o sujeito é um elemento já dado ou conhecido no texto, e o objeto direto traz a informação nova. É importante, portanto, que haja uma “descrição” desse elemento que é a novidade, descrição de que dá conta um substantivo, nunca um pronome pessoal. Trata-se, pois, de escolhas pragmáticas de padrões sintáticos, as quais dependem do fluxo de informação no discurso. Nas construções transitivas, há uma pressão da continuidade tópica do discurso, que leva ä manutenção de protagonistas, o que dispensa novas menções com núcleo substantivo ns sujeitos, mas não nos objetos diretos, mais variados, porque mais freqüentemente introdutores de elementos novos. Mas nada disso pode ser oferecido em aulas rituais de gramática, como se tudo na produção dos enunciados fossem fórmulas prontas. Na nossa fábula, por exemplo, os sujeitos se referem quase exclusivamente à rã e ao boi, e, entretanto, não há nenhum “sujeito oculto” ou sujeito pronominal. Lobato insistiu em sintagmas nominais, e isso não é pobreza, como poderia concluir um leitor desavisado. Pelo contrário, há evidente obtenção de efeitos de sentido dirigida por boas escolhas: em primeiro lugar, o padrão que serviu em geral à nossa narrativa não foi o de orações com objeto direto (aquelas em que a eficiência provada é de sintagmas nominais como complemento) e, em segundo lugar, fica evidente que determinações do todo do texto dirigiram as escolhas.
O que vale, portanto, não é sair à caça de formas “ocultas”, mas entender e sentir que foi que se conseguiu, no texto, “ocultando”- ou não – essas formas.
Em última análise, lendo o que escreveu Maria Helena, verificamos que há uma necessidade premente de um estudo aprofundado das teorias do discurso, tão bem escritas por Baktin e consequentemente da disciplina Lingüística Aplicada.
Profº Jorge Luiz Malkomes Muniz
Professor da UVA
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