FRAGMENTOS DE UMA RESENHA E OUTRAS ANOTAÇÕES
Do livro História das teorias da comunicação
Nos últimos anos, Armand Mattelart vem realizando um audacioso projeto: escrever a história das mídias, das teorias que as envolvem e dos processos de comunicação sob os mais diferentes aspectos. Do ponto de vista do leitor brasileiro, primeiro foi a vez do livro Comunicação-Mundo (Petrópolis, Vozes. 1994). Agora, a Loyola lança este História das teorias da comunicação.
Se Comunicação-Mundo organizava-se em três grandes blocos, a guerra, o progresso tecnológico e a cultura, este novo trabalho é mais fragmentário, mas ao mesmo tempo, mais definido. Ele se desdobra em sete grandes capítulos que vai abrangendo as diferentes fontes teóricas, espalhadas pelas diferentes disciplinas que, ao longo dos dois últimos séculos, e às vezes até bem antes, terminaram por influenciar a maneira de conceber, discutir e pensar os processos de informação (conseqüentemente, de comunicação) existentes hoje em dia no mundo. Por isso mesmo, a mesma característica do livro anterior, ainda que em percentuais menores, a reiteração de alguns enfoques, ainda que sob novas perspectivas, ocorre também neste trabalho.
Partindo do reconhecimento de que “a noção de comunicação recobre uma multiplicidade de sentidos” (p. 9), Mattelart evidencia que a ciência da informação, por ser disciplina nova, dependeu de outras muitas disciplinas para formar seu corpus conceitual. Assim, a partir das sociologia, da antropologia e dessas áreas afins, Mattelart recupera, dentre outros, o contemporâneo conceito de rede de comunicação (p. 15 e ss.), que reencontrará no último capítulo (p. 157 e ss.), quando sintetiza: “a sociedade é definida em termos de comunicação, que é definida em termos de redes”. Assim, retoma a perspectiva da cibernética, sublinhando que a mesma “substitui a teoria matemática da informação” na contemporaneidade.
Reunindo os princípios da Escola de Chicago, e depois destacando a importância da Escola de Palo Alto, recuperando a contribuição vanguardista de Harold Lasswell e os princípios da mass communication research (p. 36 e ss.), Mattelart chega ao modelo matemático de Shannon, que cruza com o conceito cibernético de Wiener, para depois enveredar pela indústria cultural e as perspectivas desdobradas, a partir das matrizes marxistas, pela Escola de Frankfurt e, complementarmente, pelo estruturalismo francês e norte americano, bem como pelos cultural studies de Birmingham, até o conceito de sociedade global que, afirma ele, tem sua origem no conhecido mas nem sempre justamente valorizado ensaio de Marshall McLuhan War and peace in the global village de 1969.
O volume incursiona ainda pela valorização das práticas cotidianas, revalorizando a contribuição da etnometodologia, do agir comunicativo de Jürgen Habermas – que dava um passo além da teoria crítica frankfurtiana – para chegar aos estudos dos usos e gratificações dos funcionalistas norte-americanos, concluindo pela potencialidade híbrida dos processos de comunicação como parte de sua natureza.
A lição mais genérica e universalizadora que se pode tirar desta nova obra de Mattelart é que, na verdade, tanto uma história dos meios de comunicação quanto dos processos, suas tecnologias ou teorias a respeito da comunicação, podem variar infinitamente segundo os diferentes pontos de partida que se tomem. Ou seja, se é verdade que não existe uma única teoria da comunicação, como quer Sandra Reimão (“Teoria ou Teorias da Comunicação” in INTERCOM-Revista Brasileira de Comunicação, S. Paulo, INTERCOM, Vol. XVII. n. 2, julho-dezembro de 1994), não menos verdade é que inexiste uma única história, quer dos meios, quer dos processos ou das tecnologias da informação. O desafio mais provocante, pois, é justamente esta abertura imensa que a área nos concede, não apenas porque é um campo de conhecimento ainda novo, mas porque, justamente, lida com um fenômeno que, por si só, é uma mescla de diferentes fenômenos porque, na verdade, se encontra, se cruza, enriquece e é enriquecido por todos eles. Esta lição de grandeza e, ao mesmo tempo, de humildade, deve ser o grande saldo da leitura deste novo livro de Mattelart que, como sempre, é fascinante, e tão mais fascinante tem se tornado à medida em que o autor, como já frisei a respeito do trabalho anterior publicado em língua portuguesa, distancia-se da camisa-de-força da análise marxista ortodoxa. MATTELART, Armand – História das teorias da comunicação, S.P, Loyola, 1999, 220 páginas.
Com o surgimento da Sociologia, resultado de duas revoluções ocorridas no Século XVIII, a Industrial e a Francesa, os estudos dos fenômenos sociais se dividiram duas propostas teóricas, dois posicionamentos opostos diante do mundo: o positivismo e o marxismo; este, pretendia modificar a estrutura de classes vigentes.
Texto: Antonio Hohlfeldt – Profº. Coordenador PPGC-FAMECOS/PUCRS
Revista FAMECOS.Porto Alegre.Nº 11.Dezembro de 1999.semestral
Fragmentos: Prof. Jorge Luiz Malkomes Muniz
Nos últimos anos, Armand Mattelart vem realizando um audacioso projeto: escrever a história das mídias, das teorias que as envolvem e dos processos de comunicação sob os mais diferentes aspectos. Do ponto de vista do leitor brasileiro, primeiro foi a vez do livro Comunicação-Mundo (Petrópolis, Vozes. 1994). Agora, a Loyola lança este História das teorias da comunicação.
Se Comunicação-Mundo organizava-se em três grandes blocos, a guerra, o progresso tecnológico e a cultura, este novo trabalho é mais fragmentário, mas ao mesmo tempo, mais definido. Ele se desdobra em sete grandes capítulos que vai abrangendo as diferentes fontes teóricas, espalhadas pelas diferentes disciplinas que, ao longo dos dois últimos séculos, e às vezes até bem antes, terminaram por influenciar a maneira de conceber, discutir e pensar os processos de informação (conseqüentemente, de comunicação) existentes hoje em dia no mundo. Por isso mesmo, a mesma característica do livro anterior, ainda que em percentuais menores, a reiteração de alguns enfoques, ainda que sob novas perspectivas, ocorre também neste trabalho.
Partindo do reconhecimento de que “a noção de comunicação recobre uma multiplicidade de sentidos” (p. 9), Mattelart evidencia que a ciência da informação, por ser disciplina nova, dependeu de outras muitas disciplinas para formar seu corpus conceitual. Assim, a partir das sociologia, da antropologia e dessas áreas afins, Mattelart recupera, dentre outros, o contemporâneo conceito de rede de comunicação (p. 15 e ss.), que reencontrará no último capítulo (p. 157 e ss.), quando sintetiza: “a sociedade é definida em termos de comunicação, que é definida em termos de redes”. Assim, retoma a perspectiva da cibernética, sublinhando que a mesma “substitui a teoria matemática da informação” na contemporaneidade.
Reunindo os princípios da Escola de Chicago, e depois destacando a importância da Escola de Palo Alto, recuperando a contribuição vanguardista de Harold Lasswell e os princípios da mass communication research (p. 36 e ss.), Mattelart chega ao modelo matemático de Shannon, que cruza com o conceito cibernético de Wiener, para depois enveredar pela indústria cultural e as perspectivas desdobradas, a partir das matrizes marxistas, pela Escola de Frankfurt e, complementarmente, pelo estruturalismo francês e norte americano, bem como pelos cultural studies de Birmingham, até o conceito de sociedade global que, afirma ele, tem sua origem no conhecido mas nem sempre justamente valorizado ensaio de Marshall McLuhan War and peace in the global village de 1969.
O volume incursiona ainda pela valorização das práticas cotidianas, revalorizando a contribuição da etnometodologia, do agir comunicativo de Jürgen Habermas – que dava um passo além da teoria crítica frankfurtiana – para chegar aos estudos dos usos e gratificações dos funcionalistas norte-americanos, concluindo pela potencialidade híbrida dos processos de comunicação como parte de sua natureza.
A lição mais genérica e universalizadora que se pode tirar desta nova obra de Mattelart é que, na verdade, tanto uma história dos meios de comunicação quanto dos processos, suas tecnologias ou teorias a respeito da comunicação, podem variar infinitamente segundo os diferentes pontos de partida que se tomem. Ou seja, se é verdade que não existe uma única teoria da comunicação, como quer Sandra Reimão (“Teoria ou Teorias da Comunicação” in INTERCOM-Revista Brasileira de Comunicação, S. Paulo, INTERCOM, Vol. XVII. n. 2, julho-dezembro de 1994), não menos verdade é que inexiste uma única história, quer dos meios, quer dos processos ou das tecnologias da informação. O desafio mais provocante, pois, é justamente esta abertura imensa que a área nos concede, não apenas porque é um campo de conhecimento ainda novo, mas porque, justamente, lida com um fenômeno que, por si só, é uma mescla de diferentes fenômenos porque, na verdade, se encontra, se cruza, enriquece e é enriquecido por todos eles. Esta lição de grandeza e, ao mesmo tempo, de humildade, deve ser o grande saldo da leitura deste novo livro de Mattelart que, como sempre, é fascinante, e tão mais fascinante tem se tornado à medida em que o autor, como já frisei a respeito do trabalho anterior publicado em língua portuguesa, distancia-se da camisa-de-força da análise marxista ortodoxa. MATTELART, Armand – História das teorias da comunicação, S.P, Loyola, 1999, 220 páginas.
Com o surgimento da Sociologia, resultado de duas revoluções ocorridas no Século XVIII, a Industrial e a Francesa, os estudos dos fenômenos sociais se dividiram duas propostas teóricas, dois posicionamentos opostos diante do mundo: o positivismo e o marxismo; este, pretendia modificar a estrutura de classes vigentes.
Texto: Antonio Hohlfeldt – Profº. Coordenador PPGC-FAMECOS/PUCRS
Revista FAMECOS.Porto Alegre.Nº 11.Dezembro de 1999.semestral
Fragmentos: Prof. Jorge Luiz Malkomes Muniz
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