MEU CADERNO É UM LAPTOP
Época nº 0482 (13/8/2007)Marcela Buscato e Luciana Vicária
Algumas escolas brasileiras começam neste semestre a emprestar um computador portátil para cada aluno levar para casa. Como isso pode transformar a educação
UM LAPTOP POR CRIANÇA
Gabriel Luna, do colégio Porto Seguro, em São Paulo, se prepara para levar seu notebook azul para casa. É uma das primeiras experiências do tipo no Brasil
O computador da família do estudante Gabriel Faleiros Luna, de 10 anos, fica no quarto do garoto . Mas ele diz que ainda não ganhou intimidade com a máquina . O aluno da 4a série do ensino fundamental do Colégio Visconde de Porto Seguro , uma escola particular de São Paulo, afirma que não gasta mais que 15 minutos por dia conectado. Só o suficiente para ler os e-mails trocados com o avô e o pai . Seus assuntos preferidos são carros e vídeos engraçados . E pesquisa para a escola na internet ? Sim, Gabriel diz que faz um pouco . Na mais recente , descobriu que o navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro a dar a volta ao mundo. Mas Gabriel diz que prefere desenhar no papel e jogar no videogame Wii a usar o computador de casa. Segundo ele, a máquina lhe dá um pouco de medo . "O computador fica no meu quarto, mas é da minha mãe ", afirma. "Tenho medo de apagar algum arquivo importante dela. Também é difícil de mexer porque os comandos estão em inglês ."
Todo esse receio em relação ao computador sumiu há duas semanas, quando Gabriel entrou em contato, pela primeira vez, com um dos novos notebooks infantis que estão chegando a seu colégio. A máquina é um dos modelos de notebooks simples e baratos inspirados no projeto mundial Um Laptop por Criança (OLPC, na sigla em inglês). Parecia um simples caderno de capa azul, com pouco mais de 20 centímetros de comprimento e 5 centímetros de largura. "Nooossa! Muito legaaaal! Muuuito legal!", dizia Gabriel. Ele logo achou o botão de ligar e o controle do cursor e entrou num programa educativo. Sem tirar os olhos e as mãos da máquina, dizia que agora, sim, não teria medo de mexer no computador. E já planejava levar o notebook em suas viagens para visitar parentes em Ribeirão Preto.
Gabriel será uma das primeiras crianças brasileiras a receber um notebook só para si, para fazer o que quiser com ele. Seu colégio foi escolhido para testar o computador pelo grupo educacional Positivo, fabricante de um dos modelos existentes no Brasil. Cerca de 900 máquinas equivalentes já estão sendo experimentadas em escolas públicas s e privadas. Mas ainda não saíram da escola. Só agora um grupo de alunos brasileiros terá a experiência de ficar o tempo todo com o computador. A partir de setembro, a turma de Gabriel vai receber 36 máquinas. As crianças poderão levá-las – com baterias que duram até quatro horas e conexão de internet sem fio – para o curso de inglês, para o clube ou para a casa dos amigos. Ficarão com elas nos fins de semana e feriados. Poderão levar trabalhos, fotos, textos, desenhos e músicas de um lugar para outro na memória da máquina.
840 LAPTOPS INFANTIS
estão sendo testados em escolas municipais e estaduais do país. Se der certo, o governo pretende licitar 150 mil máquinas neste ano
Isso não é apenas "legal, muito legal". É uma iniciativa capaz de mudar de forma radical a educação das crianças brasileiras. Pesquisas mostram que, com um computador próprio, elas passam a ter mais autonomia para aprender, mais estímulo para estudar e maior capacidade de administrar o volume extraordinário de informações do mundo de hoje. Praticamente no mundo inteiro, autoridades educacionais estão discutindo a adoção do notebook feito para crianças.
O projeto foi inicialmente pensado para combater a exclusão digital. Por isso, começou a ser testado em países em desenvolvimento (Argentina, Uruguai, Nigéria, Paquistão, Tailândia, Índia e México). Mas chamou a atenção dos governos do Canadá e dos Estados Unidos. Dezenove Estados americanos vêm pressionando a OLPC para rever sua posição de não vender o produto nos países ricos. Com 2,5 milhões de pedidos, a OLPC decidiu no mês passado iniciar a produção em massa de seu modelo de notebook, o XO. A Intel, que também entrou nesse mercado, afirmou que planeja investir US$ 1 bilhão nos próximos cinco anos.
Esse interesse todo tem um motivo: as primeiras experiências têm dado resultados animadores. O Estado americano de Michigan fez um levantamento com 22 mil alunos que tiveram acesso a laptops 24 horas por dia. Em um ano, a proporção de estudantes com proficiência em leitura subiu de 29% para 41%. O porcentual de alunos aprovados em matemática dobrou, de 31% para 63%. Os laptops incentivaram principalmente os alunos mais fracos. A proporção de alunos com notas finais D e E (as mais baixas) caiu de 29% para 2%. As suspensões caíram 5% e as faltas 20%. Em um estudo equivalente, realizado no Estado do Maine, 54% dos estudantes informaram que suas notas melhoraram. Os professores também observaram que a evasão diminuiu.
Outro levantamento, feito no Estado canadense de British Columbia, concluiu que o principal ganho foi na habilidade de escrita dos alunos, que elevou em 30% a aprovação dos estudantes nas provas municipais. Apesar de eles terem se distraído mais durante as aulas usando programas de mensagens instantâneas e e-mail, mostraram maior interesse nos temas das aulas e dedicaram mais tempo aos estudos.
LIÇÃO SEM RASURA
Alunos da Fundação Bradesco em CampinasFelipe Restani (à dir. na foto ) prefere o Word: "Lápis é antigo "
Para Betina von Staa, coordenadora de pesquisas do grupo Positivo, a grande mudança é que, com um laptop o tempo todo disponível em casa, as crianças têm a oportunidade de usar a tecnologia para pesquisar e estudar sempre que der vontade. "Isso multiplica as oportunidades para o aprendizado. O aluno percebe que aquela máquina é dele. É como ser dono dos próprios livros ou de um instrumento musical. Você fica mais à vontade para praticar e se desenvolve mais." Segundo ela, com um computador sempre à mão, é mais fácil escrever nele que no caderno, mais produtivo buscar uma informação na internet que nos livros. Exatamente como funciona no mundo dos adultos.
Não é só o acesso à informação que muda. Ter um computador só para elas torna as crianças mais seguras, afirma a socióloga Maria Inês Bastos, coordenadora do Setor de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil. "A criança se sente valorizada por ter e saber usar um equipamento que faz parte do mundo adulto. Em alguns casos, vai até ensinar os pais a usar o notebook." Mesmo se a criança usa o computador de forma aparentemente superficial, como para mandar fotos e mensagens aos amigos, ela está iniciando uma rede de parceiros com os quais aprender. Percebe que não é apenas o professor que pode ensinar. "Se essa semente for plantada desde cedo, a criança levará essa postura de aprender constantemente, e com todos, para o resto da vida", diz Maria Inês.
Essa tese é reforçada por algumas pesquisas. Em 1998, o educador Robert Bracewell, da Universidade McGill, do Canadá, compilou centenas de estudos sobre o uso da internet nas escolas e concluiu que ela estimula a criança a se acostumar desde cedo a buscar respostas sozinha.
Além de incentivar a autonomia e valorizar a produção dos alunos, os pesquisadores afirmam que os computadores permitem estratégias diferentes de ensino. Algumas crianças têm naturalmente maior facilidade para compreender por imagens, outras por movimentos, e por aí vai. Quem tem dificuldade de prestar atenção poderá aprender melhor sobre a divisão celular se você mostrar o processo em uma animação. "Essa criança pode ser tão talentosa quanto qualquer outra, mas tem uma forma diferente de aprender", diz Betina, do Positivo. No ensino tradicional, ela tende a ficar defasada em relação ao resto da turma. Com os computadores, há mais chance de mantê-la no ritmo dos outros.
"Daqui a 50 anos, as pessoas vão rir da noção de que todo mundo tem de aprender do mesmo jeito", diz o psicólogo americano Howard Gardner, da Escola de Educação da Universidade Harvard. Ele formulou na década de 80 a teoria das inteligências múltiplas e sustenta que os computadores podem estimular a educação de crianças com perfis variados.
Mais que isso, o computador – e a internet – leva a uma nova forma de lidar com o conhecimento. "Há milhares de anos, a invenção da escrita provocou uma revolução na educação, mudando tanto a forma como as pessoas pensam o estudo quanto as ferramentas para ensinar", diz Gardner. Até então, prevalecia a memória: as pessoas decoravam obras inteiras dos clássicos. A partir daí, privilegiou-se o raciocínio, porque passou a ser possível consultar as obras sempre que necessário. Com a escrita, a inovação e a criatividade ganharam força em relação à tradição. "Hoje, novas tecnologias da informação deverão ter um efeito transformador equivalente."
2,5 MILHÕES DE ENCOMENDAS
é o que a fábrica chinesa Quanta Computer diz ter recebido para o modelo XO de notebook infantil, projetado pelo MIT
Esse efeito foi vislumbrado pelo engenheiro americano Vannevar Bush em 1945. Ele propunha um sistema, que batizou de Memex, capaz de guardar todo o conhecimento da civilização. As páginas teriam remissões para outras páginas, de forma semelhante aos hipertextos que ficaram populares com o desenvolvimento da internet, na década de 90. Agora estaríamos perto de realizar a utopia de Vannevar Bush.
Para Adriana Carvalho, coordenadora da área de educação e tecnologia do Instituto Ayrton Senna, o computador ajuda o aluno a desenvolver quatro habilidades consideradas básicas: as pessoais (relacionadas ao autoconhecimento, ao desenvolvimento da auto-estima), as relacionais (ligadas à interação com outras pessoas), as cognitivas (que dizem s respeito à capacidade de aprender e raciocinar) e as produtivas (o modo como a criança usará todas essas habilidades em sua vida). "A escola baseada no modelo caderno-e-lousa dá mais ênfase às habilidades cognitivas. Os recursos multimídias e interativos do computador ajudam a desenvolver também as outras habilidades."
Os recursos do computador permitem ainda que a criança aprenda a lidar com a multiplicidade de informações que, mesmo na infância, chegam até ela, seja por meio da televisão, dos jogos, da família ou dos amigos. "Ao fazer uma pesquisa na internet, os alunos precisam ler, entender e selecionar as informações. Antes, era só copiar o verbete da Barsa", diz Carlos Seabra, diretor do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO). "As crianças ganham a competência de editar, fundamental no mundo da informação."
O programa de emprestar notebooks para todos os alunos, porém, não é uma unanimidade. Até o fim do semestre, a escola Liverpool High, de Nova York, planeja encerrar seu projeto de sete anos. O diretor da escola afirma que o desempenho dos alunos não melhorou com o uso de computadores. Eles teriam usado o notebook apenas para diversão. No Texas, o Centro de Pesquisa Educacional avaliou 44 escolas durante um ano. Metade delas tinha aderido ao sistema de um notebook por aluno. Os pesquisadores não detectaram nenhuma diferença no rendimento dos estudantes em matemática e em atividades de leitura. Houve ganho apenas entre os alunos que já iam bem em matemática. Esses tiveram um desempenho ainda melhor.
É provável que esses fracassos se devam à falta de softwares educacionais e a falhas na formação dos professores. Pelo menos isso é o que indicam as pesquisas feitas com o computador usado apenas na escola. Um estudo feito neste ano pelo Ministério da Educação brasileiro revela que os alunos de escolas que têm laboratórios de informática tiraram notas mais baixas em matemática no Saeb (o exame nacional de avaliação do ensino básico). Mas nas escolas que usam os computadores para acessar a internet e ensinar as disciplinas, as notas dos alunos foram mais altas que a média. "Quando a escola usa a máquina apenas para ensinar a mexer na máquina, dando aula de Word e Excel, as notas caem, porque o professor perde tempo de aula", diz Fabiana de Felício, uma das autoras do estudo.
FUNÇÃO SOCIAL
Nicholas Negroponte, do MIT, mostra um dos primeiros protótipos do notebook infantil. Sua idéia era para nações mais pobres. As ricas também querem
A necessidade de políticas educacionais consistentes para aproveitar o potencial do computador é apontada também pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos ( Pisa). Trata-se do mais respeitado levantamento mundial de desempenho de sistemas educacionais, feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre os 31 países-membros e mais 11 nações em desenvolvimento , incluindo o Brasil. Em um estudo sobre computadores divulgado em 2006, o Pisa concluiu que os alunos com menos acesso a computadores têm notas mais baixas – mesmo quando comparados com crianças de mesmo nível social. Os estudantes que usam mais o computador em casa têm notas maiores que os demais. Porém , o melhor desempenho foi entre aqueles que usam o computador moderadamente (cerca de uma vez por semana ). Para os especialistas do Pisa, isso significa que também nos países ricos os professores ainda não sabem tirar todo o proveito dos computadores como ferramenta de educação.
Outra conclusão do Pisa é que o Brasil está muito atrasado em usar a informática na educação. Entre os países mais ricos, 79% dos alunos usam computador para fazer trabalhos escolares. Países como os EUA, a Austrália e a Coréia do Sul têm um computador para cada três alunos nas escolas públicas. É uma média superior até a das escolas de elite brasileiras.
A idéia de dar a cada criança um laptop, pessoal e intransferível, nasceu justamente para diminuir essa disparidade entre os países ricos e pobres. Em 2005, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), liderado pelo cientista Nicholas Negroponte, propôs criar um laptop de US$ 100, barato a ponto de diminuir a exclusão digital de países pobres ou em desenvolvimento. O projeto virou uma ONG internacional, a One Laptop per Child (Um Laptop por Criança).
A inovação foi conceber um produto que está no meio do caminho entre um notebook completo e um brinquedo de criança. Para isso, foi preciso fazer escolhas. O computador idealizado pelo MIT não tem drive para CD e a memória é pequena. Em compensação, tem características fundamentais para um computador infantil: resiste a um banho de refrigerante (inclusive no teclado), mãos engorduradas e quedas da mesa. Os laptops s cabem numa bolsa ou numa mochila. Nenhum modelo pesa mais que dois cadernos de 400 páginas em formato A4.
Diante da descrença inicial dos grandes fabricantes de computadores, a própria equipe do MIT desenvolveu o primeiro modelo de laptop infantil barato, o XO (embora ainda não a US$ 100). A fábrica chinesa Quanta Computer fez milhares de protótipos. Percebendo o potencial do mercado, no ano passado a Intel desenvolveu um modelo próprio, o Classmate. No Brasil, ele é fabricado pela CCE e pelo Positivo. Na disputa por uma vaga nas escolas já surgiu um terceiro concorrente, o Mobilis, da Encore. A empresa é de origem indiana, mas o produto é desenvolvido por engenheiros brasileiros em São Paulo. Calcula-se que mais empresas vão entrar no negócio.
No início do ano, o governo federal recebeu doações de modelos dos três fabricantes. Os 840 laptops foram para escolas municipais e estaduais do país. A partir deste mês, algumas turmas poderão levar as máquinas para casa. "Vai ser uma revolução", diz Carlos Eduardo Bielschowsky, secretário de Educação a Distância do ministério. "Na escola, as atividades são dirigidas. Ao levar o laptop para casa, o aluno terá mais liberdade." Uma comissão de acadêmicos, montada pelo Ministério da Educação, está acompanhando os projetos. O governo anunciou que, se a experiência for considerada bem-sucedida, vai licitar 150 mil máquinas para alunos de 300 escolas públicas.
A Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, na periferia de Porto Alegre, é uma das primeiras instituições públicas que vão emprestar notebooks para os alunos levarem para casa. Hoje, dos 350 alunos, 275 já têm um laptop só para si. A experiência é coordenada pela psicóloga Léa Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aos 77 anos, Léa se diz emocionada com as mudanças que os computadores já estão promovendo na sala de aula. "Quando os meninos levarem os computadores para casa, a transformação incluirá suas famílias", diz. "Você pode propor uma atividade para que os alunos gravem, com a câmera embutida do laptop, uma receita da mãe. Depois, na escola, eles vão usar isso para aprender pesos e medidas."
ESTUDO COM 22 MIL ALUNOS ... feito no Estado de Michigan, nos EUA, mostra que , com os laptops , a proficiência em leitura subiu de 29% para 41%. E a de matemática dobrou
O uso dos computadores apenas em sala de aula já está dando resultados, diz Léa. "Os professores deixaram de dar as aulas planejadas e repetidas ano a ano." Segundo ela, quem está no comando agora são os alunos. "Eles lançam suas dúvidas sobre cada matéria, são estimulados pelos professores a formular um pequeno projeto de pesquisa." Léa conta que, durante uma aula de Geografia, um aluno de 10 anos perguntou à professora por que o sol estava tão quente. Fazia quase 40 graus em Porto Alegre naquele dia. A professora sugeriu que ele e os colegas investigassem o Sol. Pela internet, descobriram que a estrela é composta de gases, principalmente o hélio. Também ficaram sabendo que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário, como as crianças pensavam. "O melhor foi que s os alunos de 10 anos descobriram sozinhos todas essas informações", afirma Léa. Ela acredita que, se os computadores forem para casa, as crianças terão mais chances de fazer pesquisas como essa. O resultado, segundo educadores, deverá ser adultos mais autônomos, que pesquisam e propõem soluções para os problemas. "Isso é importante em um mundo que exige que as pessoas se adaptem rapidamente, tanto no trabalho quanto na vida pessoal", diz Maria Inês, da Unesco.
O método atual de ensino na escola fundamental é tão primitivo que, quando os alunos chegam à universidade, toda a motivação e a curiosidade para aprender foram eliminadas, diz Roseli de Deus Lopes, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ela coordena o teste dos laptops XO na escola municipal Ernani Silva Bruno, na periferia da capital paulista, também como parte do programa federal.
Roseli é engenheira eletricista e desenvolve pesquisas na área de realidade virtual. Nos últimos anos, tem se dedicado ao uso da tecnologia na educação. Agora usa sua familiaridade com a tecnologia para ajudar os professores a pensar novos usos para o computador na sala de aula. Um exemplo disso foi dado no Dia das Mães. Uma professora de Português pediu para que os alunos digitassem no computador a poesia que já tinham escrito no caderno. A equipe de Roseli se dispôs a criar um blog ou uma ferramenta para publicação coletiva, pela qual todos pudessem escrever o texto em conjunto.
Na semana passada, os alunos experimentaram, pela primeira vez, o que é possível fazer com um computador fora da escola. Levaram os laptops para uma visita a uma exposição de tecnologia e arte. Com as máquinas verdes pelos corredores do museu, fizeram anotações no editor de texto, tiraram fotos e gravaram vídeos com a câmera do notebook. O material, que será editado por eles mesmos, poderá ser visto por todos os alunos da escola no blog do projeto. Em uma só atividade, os alunos aprenderam a usar os recursos tecnológicos, desenvolveram habilidades de escrita e de organização de idéias e ainda exercitaram a criatividade.
A Fundação Bradesco, que foi pioneira no Brasil na adoção de laptops infantis na sala de aula, gostou tanto da experiência que deve começar, até o fim deste ano, a liberar as máquinas para os alunos as levarem para casa. A fundação é uma rede de 40 escolas para funcionários do banco e comunidades carentes. Desde setembro do ano passado, três turmas usam protótipos do laptop da Intel na escola. Os computadores fizeram os alunos valorizar sua própria produção. O aluno Jorge Wizel Mansur (nenhum parentesco com o autor), de 10 anos, conta que nunca se empenhou tanto em um trabalho como na sinopse do livro O Menino Maluquinho, de Ziraldo. Ele preparou sozinho uma apresentação em Power Point, no computador. "Eu sabia que a professora ia projetar meu trabalho para a sala inteira ver."
BLOCO DE ANOTAÇÕES
A pesquisadora Roseli, da USP, visita uma exposição com alunos de uma escola pública. Eles registraram o que viram com os notebooks
As crianças se envolvem tanto com o computador que acabam desenvolvendo uma relação carinhosa com ele. O armário que guarda os laptops é chamado de "berçário". E o momento mais esperado do dia é a fila para pegar o laptop. "É melhor que a hora do recreio", afirma s Felipe Restani, de 10 anos. Ele diz que o computador de casa tem de ser dividido com o irmão. "Não vejo a hora de poder levar um laptop para casa."
Uma vantagem adicional de levar o laptop para casa, na opinião de Nivaldo Marcusso, gerente de Tecnologia da Fundação Bradesco, será aproximar as famílias da escola. É um fator de melhora do ensino. Pais que se interessam pela vida escolar, em geral, têm filhos com rendimento acima da média da classe. "Se o laptop for compartilhado pela família, pode incentivar os pais a acompanhar o que os filhos estão estudando." Ele acredita que isso é particularmente importante entre as famílias de classe mais baixa, em que os pais têm nível de escolaridade inferior ao dos filhos.
Ainda existem algumas dúvidas sobre o programa. Um dos pontos mais delicados é a segurança dos alunos. Crianças com laptop na mochila não virariam alvo de ladrões? Esse é um dos motivos pelos quais os estudantes da escola municipal Ernani Silva Bruno, em São Paulo, ainda não levam os computadores para casa. Em Porto Alegre, a direção da escola Luciana de Abreu só vai liberar os computadores com a autorização dos pais. Do contrário, as crianças só saem com as máquinas se os pais forem buscar os filhos. A própria Intel, que criou o Classmate, percebeu essa preocupação dos pais. Segundo a empresa, o computador já vem com um sistema antifurto instalado. O aparelho só funcionaria com uma senha renovada na conexão com o computador da escola. "Em alguns dias sem conectar-se com a rede da escola, o laptop pára de funcionar", diz Fábio Tagnin, da Intel, integrante da equipe que criou o Classmate. A Intel diz que não dá nem para roubar os componentes da máquina porque as peças do equipamento são soldadas. Por via das dúvidas, a Fundação Bradesco em Campinas planeja uma campanha de conscientização na região antes de liberar os computadores.
Outro ponto polêmico do projeto é o investimento necessário para comprar os computadores, principalmente na rede pública. Mesmo entusiasta das novas tecnologias, Maria Inês Bastos, da Unesco, diz que esse programa não deve ser uma prioridade. "Antes de financiar a compra de computadores para as escolas públicas, o Brasil precisa investir na qualificação dos professores, em melhores salários. Se o professor não for qualificado, não conseguirá usar esse recurso de maneira eficiente."
Seja como investimento público ou privado, há um consenso entre os educadores: a chegada da informática na educação é inevitável. A dúvida é apenas como usar essa tecnologia. Será que os computadores vão substituir os cadernos, os diários, as agendas e os bloquinhos das crianças? Algum dia, provavelmente sim. O aluno Felipe Restani, da Fundação Bradesco, que ainda só usa o notebook na escola, diz que faria isso com alegria. "Prefiro escrever com o teclado que com o velho lápis." E por que temos tanto medo disso? "Crianças com computadores não deixarão de ter contato com giz de cera, massinha ou lápis de cor", diz Betina. "Mas, inevitavelmente, a escrita à mão vai ficar cada vez mais marginal na vida das crianças, assim como na dos adultos. Quem hoje em dia faz qualquer trabalho sério sem um editor de texto?" O que se defende é que a escola entre no século XXI. Os adultos hoje só usam caneta para escrever bilhetes ou listas de compras. Por que com as crianças deveria ser diferente?
Os principais laptops educacionais
As características dos três modelos que disputam um lugar nas escolas brasileiras
Classmate - R$ 1.000 -RAM 256 MB - Memória flash 2 Gb (Windows) ou 1Gb (Linux) - 1,5 kg - Duração da bateria - Até 4 horas
XO - R$ 328 - RAM 128 MB - Memória flash 512 MB (linux) - 1,3 kg - Duração da bateria - Até 4 horas
Móbilis - R$ 357 - RAM 128 MB - Memória flash 128 MB (Windows) - 800 gramas - Duração da bateria - Até 10 horas
Extras Tem entrada para cartão de memória e é protegido por uma capa de borracha capaz de amortecer quedas Possui tela giratória, pode ser ativado por luz solar e tem câmera embutida Recebe sinal da TV aberta e tem tela sensível ao toque. Tem entrada para cartão de memória
Quem fabrica Positivo e CCE Quanta Encore
Os adultos vão seguir as crianças
Algumas escolas brasileiras começam neste semestre a emprestar um computador portátil para cada aluno levar para casa. Como isso pode transformar a educação
UM LAPTOP POR CRIANÇA
Gabriel Luna, do colégio Porto Seguro, em São Paulo, se prepara para levar seu notebook azul para casa. É uma das primeiras experiências do tipo no Brasil
O computador da família do estudante Gabriel Faleiros Luna, de 10 anos, fica no quarto do garoto . Mas ele diz que ainda não ganhou intimidade com a máquina . O aluno da 4a série do ensino fundamental do Colégio Visconde de Porto Seguro , uma escola particular de São Paulo, afirma que não gasta mais que 15 minutos por dia conectado. Só o suficiente para ler os e-mails trocados com o avô e o pai . Seus assuntos preferidos são carros e vídeos engraçados . E pesquisa para a escola na internet ? Sim, Gabriel diz que faz um pouco . Na mais recente , descobriu que o navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro a dar a volta ao mundo. Mas Gabriel diz que prefere desenhar no papel e jogar no videogame Wii a usar o computador de casa. Segundo ele, a máquina lhe dá um pouco de medo . "O computador fica no meu quarto, mas é da minha mãe ", afirma. "Tenho medo de apagar algum arquivo importante dela. Também é difícil de mexer porque os comandos estão em inglês ."
Todo esse receio em relação ao computador sumiu há duas semanas, quando Gabriel entrou em contato, pela primeira vez, com um dos novos notebooks infantis que estão chegando a seu colégio. A máquina é um dos modelos de notebooks simples e baratos inspirados no projeto mundial Um Laptop por Criança (OLPC, na sigla em inglês). Parecia um simples caderno de capa azul, com pouco mais de 20 centímetros de comprimento e 5 centímetros de largura. "Nooossa! Muito legaaaal! Muuuito legal!", dizia Gabriel. Ele logo achou o botão de ligar e o controle do cursor e entrou num programa educativo. Sem tirar os olhos e as mãos da máquina, dizia que agora, sim, não teria medo de mexer no computador. E já planejava levar o notebook em suas viagens para visitar parentes em Ribeirão Preto.
Gabriel será uma das primeiras crianças brasileiras a receber um notebook só para si, para fazer o que quiser com ele. Seu colégio foi escolhido para testar o computador pelo grupo educacional Positivo, fabricante de um dos modelos existentes no Brasil. Cerca de 900 máquinas equivalentes já estão sendo experimentadas em escolas públicas s e privadas. Mas ainda não saíram da escola. Só agora um grupo de alunos brasileiros terá a experiência de ficar o tempo todo com o computador. A partir de setembro, a turma de Gabriel vai receber 36 máquinas. As crianças poderão levá-las – com baterias que duram até quatro horas e conexão de internet sem fio – para o curso de inglês, para o clube ou para a casa dos amigos. Ficarão com elas nos fins de semana e feriados. Poderão levar trabalhos, fotos, textos, desenhos e músicas de um lugar para outro na memória da máquina.
840 LAPTOPS INFANTIS
estão sendo testados em escolas municipais e estaduais do país. Se der certo, o governo pretende licitar 150 mil máquinas neste ano
Isso não é apenas "legal, muito legal". É uma iniciativa capaz de mudar de forma radical a educação das crianças brasileiras. Pesquisas mostram que, com um computador próprio, elas passam a ter mais autonomia para aprender, mais estímulo para estudar e maior capacidade de administrar o volume extraordinário de informações do mundo de hoje. Praticamente no mundo inteiro, autoridades educacionais estão discutindo a adoção do notebook feito para crianças.
O projeto foi inicialmente pensado para combater a exclusão digital. Por isso, começou a ser testado em países em desenvolvimento (Argentina, Uruguai, Nigéria, Paquistão, Tailândia, Índia e México). Mas chamou a atenção dos governos do Canadá e dos Estados Unidos. Dezenove Estados americanos vêm pressionando a OLPC para rever sua posição de não vender o produto nos países ricos. Com 2,5 milhões de pedidos, a OLPC decidiu no mês passado iniciar a produção em massa de seu modelo de notebook, o XO. A Intel, que também entrou nesse mercado, afirmou que planeja investir US$ 1 bilhão nos próximos cinco anos.
Esse interesse todo tem um motivo: as primeiras experiências têm dado resultados animadores. O Estado americano de Michigan fez um levantamento com 22 mil alunos que tiveram acesso a laptops 24 horas por dia. Em um ano, a proporção de estudantes com proficiência em leitura subiu de 29% para 41%. O porcentual de alunos aprovados em matemática dobrou, de 31% para 63%. Os laptops incentivaram principalmente os alunos mais fracos. A proporção de alunos com notas finais D e E (as mais baixas) caiu de 29% para 2%. As suspensões caíram 5% e as faltas 20%. Em um estudo equivalente, realizado no Estado do Maine, 54% dos estudantes informaram que suas notas melhoraram. Os professores também observaram que a evasão diminuiu.
Outro levantamento, feito no Estado canadense de British Columbia, concluiu que o principal ganho foi na habilidade de escrita dos alunos, que elevou em 30% a aprovação dos estudantes nas provas municipais. Apesar de eles terem se distraído mais durante as aulas usando programas de mensagens instantâneas e e-mail, mostraram maior interesse nos temas das aulas e dedicaram mais tempo aos estudos.
LIÇÃO SEM RASURA
Alunos da Fundação Bradesco em CampinasFelipe Restani (à dir. na foto ) prefere o Word: "Lápis é antigo "
Para Betina von Staa, coordenadora de pesquisas do grupo Positivo, a grande mudança é que, com um laptop o tempo todo disponível em casa, as crianças têm a oportunidade de usar a tecnologia para pesquisar e estudar sempre que der vontade. "Isso multiplica as oportunidades para o aprendizado. O aluno percebe que aquela máquina é dele. É como ser dono dos próprios livros ou de um instrumento musical. Você fica mais à vontade para praticar e se desenvolve mais." Segundo ela, com um computador sempre à mão, é mais fácil escrever nele que no caderno, mais produtivo buscar uma informação na internet que nos livros. Exatamente como funciona no mundo dos adultos.
Não é só o acesso à informação que muda. Ter um computador só para elas torna as crianças mais seguras, afirma a socióloga Maria Inês Bastos, coordenadora do Setor de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil. "A criança se sente valorizada por ter e saber usar um equipamento que faz parte do mundo adulto. Em alguns casos, vai até ensinar os pais a usar o notebook." Mesmo se a criança usa o computador de forma aparentemente superficial, como para mandar fotos e mensagens aos amigos, ela está iniciando uma rede de parceiros com os quais aprender. Percebe que não é apenas o professor que pode ensinar. "Se essa semente for plantada desde cedo, a criança levará essa postura de aprender constantemente, e com todos, para o resto da vida", diz Maria Inês.
Essa tese é reforçada por algumas pesquisas. Em 1998, o educador Robert Bracewell, da Universidade McGill, do Canadá, compilou centenas de estudos sobre o uso da internet nas escolas e concluiu que ela estimula a criança a se acostumar desde cedo a buscar respostas sozinha.
Além de incentivar a autonomia e valorizar a produção dos alunos, os pesquisadores afirmam que os computadores permitem estratégias diferentes de ensino. Algumas crianças têm naturalmente maior facilidade para compreender por imagens, outras por movimentos, e por aí vai. Quem tem dificuldade de prestar atenção poderá aprender melhor sobre a divisão celular se você mostrar o processo em uma animação. "Essa criança pode ser tão talentosa quanto qualquer outra, mas tem uma forma diferente de aprender", diz Betina, do Positivo. No ensino tradicional, ela tende a ficar defasada em relação ao resto da turma. Com os computadores, há mais chance de mantê-la no ritmo dos outros.
"Daqui a 50 anos, as pessoas vão rir da noção de que todo mundo tem de aprender do mesmo jeito", diz o psicólogo americano Howard Gardner, da Escola de Educação da Universidade Harvard. Ele formulou na década de 80 a teoria das inteligências múltiplas e sustenta que os computadores podem estimular a educação de crianças com perfis variados.
Mais que isso, o computador – e a internet – leva a uma nova forma de lidar com o conhecimento. "Há milhares de anos, a invenção da escrita provocou uma revolução na educação, mudando tanto a forma como as pessoas pensam o estudo quanto as ferramentas para ensinar", diz Gardner. Até então, prevalecia a memória: as pessoas decoravam obras inteiras dos clássicos. A partir daí, privilegiou-se o raciocínio, porque passou a ser possível consultar as obras sempre que necessário. Com a escrita, a inovação e a criatividade ganharam força em relação à tradição. "Hoje, novas tecnologias da informação deverão ter um efeito transformador equivalente."
2,5 MILHÕES DE ENCOMENDAS
é o que a fábrica chinesa Quanta Computer diz ter recebido para o modelo XO de notebook infantil, projetado pelo MIT
Esse efeito foi vislumbrado pelo engenheiro americano Vannevar Bush em 1945. Ele propunha um sistema, que batizou de Memex, capaz de guardar todo o conhecimento da civilização. As páginas teriam remissões para outras páginas, de forma semelhante aos hipertextos que ficaram populares com o desenvolvimento da internet, na década de 90. Agora estaríamos perto de realizar a utopia de Vannevar Bush.
Para Adriana Carvalho, coordenadora da área de educação e tecnologia do Instituto Ayrton Senna, o computador ajuda o aluno a desenvolver quatro habilidades consideradas básicas: as pessoais (relacionadas ao autoconhecimento, ao desenvolvimento da auto-estima), as relacionais (ligadas à interação com outras pessoas), as cognitivas (que dizem s respeito à capacidade de aprender e raciocinar) e as produtivas (o modo como a criança usará todas essas habilidades em sua vida). "A escola baseada no modelo caderno-e-lousa dá mais ênfase às habilidades cognitivas. Os recursos multimídias e interativos do computador ajudam a desenvolver também as outras habilidades."
Os recursos do computador permitem ainda que a criança aprenda a lidar com a multiplicidade de informações que, mesmo na infância, chegam até ela, seja por meio da televisão, dos jogos, da família ou dos amigos. "Ao fazer uma pesquisa na internet, os alunos precisam ler, entender e selecionar as informações. Antes, era só copiar o verbete da Barsa", diz Carlos Seabra, diretor do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO). "As crianças ganham a competência de editar, fundamental no mundo da informação."
O programa de emprestar notebooks para todos os alunos, porém, não é uma unanimidade. Até o fim do semestre, a escola Liverpool High, de Nova York, planeja encerrar seu projeto de sete anos. O diretor da escola afirma que o desempenho dos alunos não melhorou com o uso de computadores. Eles teriam usado o notebook apenas para diversão. No Texas, o Centro de Pesquisa Educacional avaliou 44 escolas durante um ano. Metade delas tinha aderido ao sistema de um notebook por aluno. Os pesquisadores não detectaram nenhuma diferença no rendimento dos estudantes em matemática e em atividades de leitura. Houve ganho apenas entre os alunos que já iam bem em matemática. Esses tiveram um desempenho ainda melhor.
É provável que esses fracassos se devam à falta de softwares educacionais e a falhas na formação dos professores. Pelo menos isso é o que indicam as pesquisas feitas com o computador usado apenas na escola. Um estudo feito neste ano pelo Ministério da Educação brasileiro revela que os alunos de escolas que têm laboratórios de informática tiraram notas mais baixas em matemática no Saeb (o exame nacional de avaliação do ensino básico). Mas nas escolas que usam os computadores para acessar a internet e ensinar as disciplinas, as notas dos alunos foram mais altas que a média. "Quando a escola usa a máquina apenas para ensinar a mexer na máquina, dando aula de Word e Excel, as notas caem, porque o professor perde tempo de aula", diz Fabiana de Felício, uma das autoras do estudo.
FUNÇÃO SOCIAL
Nicholas Negroponte, do MIT, mostra um dos primeiros protótipos do notebook infantil. Sua idéia era para nações mais pobres. As ricas também querem
A necessidade de políticas educacionais consistentes para aproveitar o potencial do computador é apontada também pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos ( Pisa). Trata-se do mais respeitado levantamento mundial de desempenho de sistemas educacionais, feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre os 31 países-membros e mais 11 nações em desenvolvimento , incluindo o Brasil. Em um estudo sobre computadores divulgado em 2006, o Pisa concluiu que os alunos com menos acesso a computadores têm notas mais baixas – mesmo quando comparados com crianças de mesmo nível social. Os estudantes que usam mais o computador em casa têm notas maiores que os demais. Porém , o melhor desempenho foi entre aqueles que usam o computador moderadamente (cerca de uma vez por semana ). Para os especialistas do Pisa, isso significa que também nos países ricos os professores ainda não sabem tirar todo o proveito dos computadores como ferramenta de educação.
Outra conclusão do Pisa é que o Brasil está muito atrasado em usar a informática na educação. Entre os países mais ricos, 79% dos alunos usam computador para fazer trabalhos escolares. Países como os EUA, a Austrália e a Coréia do Sul têm um computador para cada três alunos nas escolas públicas. É uma média superior até a das escolas de elite brasileiras.
A idéia de dar a cada criança um laptop, pessoal e intransferível, nasceu justamente para diminuir essa disparidade entre os países ricos e pobres. Em 2005, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), liderado pelo cientista Nicholas Negroponte, propôs criar um laptop de US$ 100, barato a ponto de diminuir a exclusão digital de países pobres ou em desenvolvimento. O projeto virou uma ONG internacional, a One Laptop per Child (Um Laptop por Criança).
A inovação foi conceber um produto que está no meio do caminho entre um notebook completo e um brinquedo de criança. Para isso, foi preciso fazer escolhas. O computador idealizado pelo MIT não tem drive para CD e a memória é pequena. Em compensação, tem características fundamentais para um computador infantil: resiste a um banho de refrigerante (inclusive no teclado), mãos engorduradas e quedas da mesa. Os laptops s cabem numa bolsa ou numa mochila. Nenhum modelo pesa mais que dois cadernos de 400 páginas em formato A4.
Diante da descrença inicial dos grandes fabricantes de computadores, a própria equipe do MIT desenvolveu o primeiro modelo de laptop infantil barato, o XO (embora ainda não a US$ 100). A fábrica chinesa Quanta Computer fez milhares de protótipos. Percebendo o potencial do mercado, no ano passado a Intel desenvolveu um modelo próprio, o Classmate. No Brasil, ele é fabricado pela CCE e pelo Positivo. Na disputa por uma vaga nas escolas já surgiu um terceiro concorrente, o Mobilis, da Encore. A empresa é de origem indiana, mas o produto é desenvolvido por engenheiros brasileiros em São Paulo. Calcula-se que mais empresas vão entrar no negócio.
No início do ano, o governo federal recebeu doações de modelos dos três fabricantes. Os 840 laptops foram para escolas municipais e estaduais do país. A partir deste mês, algumas turmas poderão levar as máquinas para casa. "Vai ser uma revolução", diz Carlos Eduardo Bielschowsky, secretário de Educação a Distância do ministério. "Na escola, as atividades são dirigidas. Ao levar o laptop para casa, o aluno terá mais liberdade." Uma comissão de acadêmicos, montada pelo Ministério da Educação, está acompanhando os projetos. O governo anunciou que, se a experiência for considerada bem-sucedida, vai licitar 150 mil máquinas para alunos de 300 escolas públicas.
A Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, na periferia de Porto Alegre, é uma das primeiras instituições públicas que vão emprestar notebooks para os alunos levarem para casa. Hoje, dos 350 alunos, 275 já têm um laptop só para si. A experiência é coordenada pela psicóloga Léa Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aos 77 anos, Léa se diz emocionada com as mudanças que os computadores já estão promovendo na sala de aula. "Quando os meninos levarem os computadores para casa, a transformação incluirá suas famílias", diz. "Você pode propor uma atividade para que os alunos gravem, com a câmera embutida do laptop, uma receita da mãe. Depois, na escola, eles vão usar isso para aprender pesos e medidas."
ESTUDO COM 22 MIL ALUNOS ... feito no Estado de Michigan, nos EUA, mostra que , com os laptops , a proficiência em leitura subiu de 29% para 41%. E a de matemática dobrou
O uso dos computadores apenas em sala de aula já está dando resultados, diz Léa. "Os professores deixaram de dar as aulas planejadas e repetidas ano a ano." Segundo ela, quem está no comando agora são os alunos. "Eles lançam suas dúvidas sobre cada matéria, são estimulados pelos professores a formular um pequeno projeto de pesquisa." Léa conta que, durante uma aula de Geografia, um aluno de 10 anos perguntou à professora por que o sol estava tão quente. Fazia quase 40 graus em Porto Alegre naquele dia. A professora sugeriu que ele e os colegas investigassem o Sol. Pela internet, descobriram que a estrela é composta de gases, principalmente o hélio. Também ficaram sabendo que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário, como as crianças pensavam. "O melhor foi que s os alunos de 10 anos descobriram sozinhos todas essas informações", afirma Léa. Ela acredita que, se os computadores forem para casa, as crianças terão mais chances de fazer pesquisas como essa. O resultado, segundo educadores, deverá ser adultos mais autônomos, que pesquisam e propõem soluções para os problemas. "Isso é importante em um mundo que exige que as pessoas se adaptem rapidamente, tanto no trabalho quanto na vida pessoal", diz Maria Inês, da Unesco.
O método atual de ensino na escola fundamental é tão primitivo que, quando os alunos chegam à universidade, toda a motivação e a curiosidade para aprender foram eliminadas, diz Roseli de Deus Lopes, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ela coordena o teste dos laptops XO na escola municipal Ernani Silva Bruno, na periferia da capital paulista, também como parte do programa federal.
Roseli é engenheira eletricista e desenvolve pesquisas na área de realidade virtual. Nos últimos anos, tem se dedicado ao uso da tecnologia na educação. Agora usa sua familiaridade com a tecnologia para ajudar os professores a pensar novos usos para o computador na sala de aula. Um exemplo disso foi dado no Dia das Mães. Uma professora de Português pediu para que os alunos digitassem no computador a poesia que já tinham escrito no caderno. A equipe de Roseli se dispôs a criar um blog ou uma ferramenta para publicação coletiva, pela qual todos pudessem escrever o texto em conjunto.
Na semana passada, os alunos experimentaram, pela primeira vez, o que é possível fazer com um computador fora da escola. Levaram os laptops para uma visita a uma exposição de tecnologia e arte. Com as máquinas verdes pelos corredores do museu, fizeram anotações no editor de texto, tiraram fotos e gravaram vídeos com a câmera do notebook. O material, que será editado por eles mesmos, poderá ser visto por todos os alunos da escola no blog do projeto. Em uma só atividade, os alunos aprenderam a usar os recursos tecnológicos, desenvolveram habilidades de escrita e de organização de idéias e ainda exercitaram a criatividade.
A Fundação Bradesco, que foi pioneira no Brasil na adoção de laptops infantis na sala de aula, gostou tanto da experiência que deve começar, até o fim deste ano, a liberar as máquinas para os alunos as levarem para casa. A fundação é uma rede de 40 escolas para funcionários do banco e comunidades carentes. Desde setembro do ano passado, três turmas usam protótipos do laptop da Intel na escola. Os computadores fizeram os alunos valorizar sua própria produção. O aluno Jorge Wizel Mansur (nenhum parentesco com o autor), de 10 anos, conta que nunca se empenhou tanto em um trabalho como na sinopse do livro O Menino Maluquinho, de Ziraldo. Ele preparou sozinho uma apresentação em Power Point, no computador. "Eu sabia que a professora ia projetar meu trabalho para a sala inteira ver."
BLOCO DE ANOTAÇÕES
A pesquisadora Roseli, da USP, visita uma exposição com alunos de uma escola pública. Eles registraram o que viram com os notebooks
As crianças se envolvem tanto com o computador que acabam desenvolvendo uma relação carinhosa com ele. O armário que guarda os laptops é chamado de "berçário". E o momento mais esperado do dia é a fila para pegar o laptop. "É melhor que a hora do recreio", afirma s Felipe Restani, de 10 anos. Ele diz que o computador de casa tem de ser dividido com o irmão. "Não vejo a hora de poder levar um laptop para casa."
Uma vantagem adicional de levar o laptop para casa, na opinião de Nivaldo Marcusso, gerente de Tecnologia da Fundação Bradesco, será aproximar as famílias da escola. É um fator de melhora do ensino. Pais que se interessam pela vida escolar, em geral, têm filhos com rendimento acima da média da classe. "Se o laptop for compartilhado pela família, pode incentivar os pais a acompanhar o que os filhos estão estudando." Ele acredita que isso é particularmente importante entre as famílias de classe mais baixa, em que os pais têm nível de escolaridade inferior ao dos filhos.
Ainda existem algumas dúvidas sobre o programa. Um dos pontos mais delicados é a segurança dos alunos. Crianças com laptop na mochila não virariam alvo de ladrões? Esse é um dos motivos pelos quais os estudantes da escola municipal Ernani Silva Bruno, em São Paulo, ainda não levam os computadores para casa. Em Porto Alegre, a direção da escola Luciana de Abreu só vai liberar os computadores com a autorização dos pais. Do contrário, as crianças só saem com as máquinas se os pais forem buscar os filhos. A própria Intel, que criou o Classmate, percebeu essa preocupação dos pais. Segundo a empresa, o computador já vem com um sistema antifurto instalado. O aparelho só funcionaria com uma senha renovada na conexão com o computador da escola. "Em alguns dias sem conectar-se com a rede da escola, o laptop pára de funcionar", diz Fábio Tagnin, da Intel, integrante da equipe que criou o Classmate. A Intel diz que não dá nem para roubar os componentes da máquina porque as peças do equipamento são soldadas. Por via das dúvidas, a Fundação Bradesco em Campinas planeja uma campanha de conscientização na região antes de liberar os computadores.
Outro ponto polêmico do projeto é o investimento necessário para comprar os computadores, principalmente na rede pública. Mesmo entusiasta das novas tecnologias, Maria Inês Bastos, da Unesco, diz que esse programa não deve ser uma prioridade. "Antes de financiar a compra de computadores para as escolas públicas, o Brasil precisa investir na qualificação dos professores, em melhores salários. Se o professor não for qualificado, não conseguirá usar esse recurso de maneira eficiente."
Seja como investimento público ou privado, há um consenso entre os educadores: a chegada da informática na educação é inevitável. A dúvida é apenas como usar essa tecnologia. Será que os computadores vão substituir os cadernos, os diários, as agendas e os bloquinhos das crianças? Algum dia, provavelmente sim. O aluno Felipe Restani, da Fundação Bradesco, que ainda só usa o notebook na escola, diz que faria isso com alegria. "Prefiro escrever com o teclado que com o velho lápis." E por que temos tanto medo disso? "Crianças com computadores não deixarão de ter contato com giz de cera, massinha ou lápis de cor", diz Betina. "Mas, inevitavelmente, a escrita à mão vai ficar cada vez mais marginal na vida das crianças, assim como na dos adultos. Quem hoje em dia faz qualquer trabalho sério sem um editor de texto?" O que se defende é que a escola entre no século XXI. Os adultos hoje só usam caneta para escrever bilhetes ou listas de compras. Por que com as crianças deveria ser diferente?
Os principais laptops educacionais
As características dos três modelos que disputam um lugar nas escolas brasileiras
Classmate - R$ 1.000 -RAM 256 MB - Memória flash 2 Gb (Windows) ou 1Gb (Linux) - 1,5 kg - Duração da bateria - Até 4 horas
XO - R$ 328 - RAM 128 MB - Memória flash 512 MB (linux) - 1,3 kg - Duração da bateria - Até 4 horas
Móbilis - R$ 357 - RAM 128 MB - Memória flash 128 MB (Windows) - 800 gramas - Duração da bateria - Até 10 horas
Extras Tem entrada para cartão de memória e é protegido por uma capa de borracha capaz de amortecer quedas Possui tela giratória, pode ser ativado por luz solar e tem câmera embutida Recebe sinal da TV aberta e tem tela sensível ao toque. Tem entrada para cartão de memória
Quem fabrica Positivo e CCE Quanta Encore
Os adultos vão seguir as crianças
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