Li e gostei
Li no blog do Simão Pedro e repasso aos amigos...
A escola perplexa
Há muito tempo venho dizendo que não conheço lugar que, hoje em dia, seja mais chato do que a escola. Ninguém quer estar ali. Professores, alunos, gestores estão ali porque não podem escapulir, quando não conseguem cabular. Mas, pensando bem, os alunos podem fugir desse lugar que lhes parece sem sentido. Sempre que podem, escapolem. Professores e gestores permanecem. Não por vontade, mas pela obrigatoriedade de cumprirem jornadas para fazer jus a um salário, não raro miserável. E, no que me parece drástico, nada fazem apesar de verem alunos fugindo e eles mesmos, professores e gestores, só estando ali porque não há alternativa. A escola perdeu seu encantamento. Virou um lugar onde professores despejam conteúdos para cumprir metas e alimentar estatísticas. E, no que é pior, são as estatísticas que apontam cada vez mais a insuficiência da escola. Solução a vista parece não haver.
Governantes, não raro, culpam os professores por esse fracasso. Denunciam sua formação e, assim, jogam parte da culpa em outros professores, os das licenciaturas. Sei que os professores, incluindo os das licenciaturas, têm responsabilidade nesse fracasso. Nossa formação inicial de professores está caduca, parou no século XIX. Formamos professores obsoletos, que "saem desatualizados da linha de montagem". Assim não podem - e muitos de fato sequer desejam isso - mudar a escola, fazê-la contemporânea da sociedade. Por isso, não é novidade alguma quando nossas pesquisas identificam o não uso ou o mal uso das tecnologias digitais na escola, seja a da Educação Básica, seja a que forma professores. E não surpreendem os fatos que servem de mote para o editorial de hoje da Folha de S.Paulo com o título:
A escola perplexa
Não faltam estudos apontando que o ensino médio se encontra numa encruzilhada no Brasil. Mais um acaba de surgir, realizado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Registra que um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos - a idade-alvo do antigo segundo grau - abandona a escola na Grande São Paulo. É o maior índice entre as seis regiões metropolitanas avaliadas.
Ao contrário do que muitos podem pensar, os jovens não deixam as salas de aula só porque precisam trabalhar. O motivo central apontado para justificar a defecção é a falta de interesse pela escola. Não basta, portanto, construir salas de aula ou criar bolsas para manter os jovens na escola - é preciso reformá-la em sentido ainda mais profundo. Claro está que um ensino mais técnico e profissionalizante cumpriria em parte esse papel, sendo mais atrativo aos olhos do aluno que procura sobretudo inserção no mercado de trabalho. Mas a ênfase utilitarista nos currículos tampouco vai diminuir o fosso que afasta os jovens da escola. Educação não é só treinamento, mas uma janela para o universo da cultura, ciência incluída. Professores e alunos, contudo, falam cada vez mais línguas diferentes. A percepção desse fenômeno é refletida em filmes como o francês "Entre os Muros da Escola", de Laurent Cantet, e o brasileiro "Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim.
Mesmo quando há disposição para um reencontro de mestres e alunos em torno do saber, falta-lhes um repertório comum. O divórcio crescente só será contido com inovação, começando pelo uso mais intensivo das tecnologias digitais, que tanto atraem os adolescentes. Mas os educadores precisam reinventar-se como tradutores da melhor cultura para uma linguagem que seus alunos entendam e apreciem.
Nota: os links ao longo do editorial não constavam da versão original.
Escrito por Simão Pedro Marinho
A escola perplexa
Há muito tempo venho dizendo que não conheço lugar que, hoje em dia, seja mais chato do que a escola. Ninguém quer estar ali. Professores, alunos, gestores estão ali porque não podem escapulir, quando não conseguem cabular. Mas, pensando bem, os alunos podem fugir desse lugar que lhes parece sem sentido. Sempre que podem, escapolem. Professores e gestores permanecem. Não por vontade, mas pela obrigatoriedade de cumprirem jornadas para fazer jus a um salário, não raro miserável. E, no que me parece drástico, nada fazem apesar de verem alunos fugindo e eles mesmos, professores e gestores, só estando ali porque não há alternativa. A escola perdeu seu encantamento. Virou um lugar onde professores despejam conteúdos para cumprir metas e alimentar estatísticas. E, no que é pior, são as estatísticas que apontam cada vez mais a insuficiência da escola. Solução a vista parece não haver.
Governantes, não raro, culpam os professores por esse fracasso. Denunciam sua formação e, assim, jogam parte da culpa em outros professores, os das licenciaturas. Sei que os professores, incluindo os das licenciaturas, têm responsabilidade nesse fracasso. Nossa formação inicial de professores está caduca, parou no século XIX. Formamos professores obsoletos, que "saem desatualizados da linha de montagem". Assim não podem - e muitos de fato sequer desejam isso - mudar a escola, fazê-la contemporânea da sociedade. Por isso, não é novidade alguma quando nossas pesquisas identificam o não uso ou o mal uso das tecnologias digitais na escola, seja a da Educação Básica, seja a que forma professores. E não surpreendem os fatos que servem de mote para o editorial de hoje da Folha de S.Paulo com o título:
A escola perplexa
Não faltam estudos apontando que o ensino médio se encontra numa encruzilhada no Brasil. Mais um acaba de surgir, realizado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Registra que um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos - a idade-alvo do antigo segundo grau - abandona a escola na Grande São Paulo. É o maior índice entre as seis regiões metropolitanas avaliadas.
Ao contrário do que muitos podem pensar, os jovens não deixam as salas de aula só porque precisam trabalhar. O motivo central apontado para justificar a defecção é a falta de interesse pela escola. Não basta, portanto, construir salas de aula ou criar bolsas para manter os jovens na escola - é preciso reformá-la em sentido ainda mais profundo. Claro está que um ensino mais técnico e profissionalizante cumpriria em parte esse papel, sendo mais atrativo aos olhos do aluno que procura sobretudo inserção no mercado de trabalho. Mas a ênfase utilitarista nos currículos tampouco vai diminuir o fosso que afasta os jovens da escola. Educação não é só treinamento, mas uma janela para o universo da cultura, ciência incluída. Professores e alunos, contudo, falam cada vez mais línguas diferentes. A percepção desse fenômeno é refletida em filmes como o francês "Entre os Muros da Escola", de Laurent Cantet, e o brasileiro "Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim.
Mesmo quando há disposição para um reencontro de mestres e alunos em torno do saber, falta-lhes um repertório comum. O divórcio crescente só será contido com inovação, começando pelo uso mais intensivo das tecnologias digitais, que tanto atraem os adolescentes. Mas os educadores precisam reinventar-se como tradutores da melhor cultura para uma linguagem que seus alunos entendam e apreciem.
Nota: os links ao longo do editorial não constavam da versão original.
Escrito por Simão Pedro Marinho
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