Retrato do professor brasileiro
José Teodoro Soares
17 Out 2009 - 01h18min
A realidade dos professores é de baixos salários e formação deficiente, como atesta o estudo ``Professores brasileiros: impasses e desafios``, realizado pelas pesquisadoras Bernardete Angelina Gatti e Elba Siqueira de Sá Barreto, com o patrocínio da Unesco. Metade dos professores ganha menos de $ 720. E no Nordeste é ainda pior, pois não chega a R$ 450 a renda da metade do professorado.
Tão grave quanto a situação é a falta de iniciativa para resolvê-la. Os políticos fogem do assunto, talvez porque os resultados só aparecem muitos anos depois. Enquanto isso, o país vai perdendo a chance de ser uma nação menos desigual e adiando o sonho de justiça social.
Se o Brasil reformulasse os currículos dos cursos de licenciatura, investisse em formação profissional dos professores, valorização salarial e estrutura das escolas públicas, ainda assim seriam necessárias mais duas décadas para que a qualidade do ensino no país chegasse perto da observada em Estados desenvolvidos. A avaliação é do consultor em educação da Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura (Unesco) no Brasil Célio Cunha.
É uma tarefa gigantesca, e demanda recursos para investimento. Com os atuais 4,5% do PIB destinados à educação, não iremos muito longe. Por isso me associo à campanha que defende 10% do PIB para a educação. Ou o Brasil dobra os investimentos na educação, ou vai ficar para trás antes de conquistar o almejado protagonismo internacional.
Vejamos mais alguns dados alarmantes do estudo patrocinado pela Unesco. A média de escolaridade dos professores brasileiros é de 14 anos. Ora, o tempo mínimo necessário para a conclusão dos ensinos fundamental, médio e superior é de 15 anos. Isso mostra que uma grande parcela dos professores não tem nível superior completo, o que contraria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação & LDB.
Cerca de 10% dos professores dos ensinos infantil e fundamental não têm sequer o ensino médio. Existem mais de 20 mil professores que têm apenas o ensino fundamental, ou menos ainda. O MEC estima em 600 mil o número de professores sem formação adequada. E nem mesmo os professores com diploma universitário saem da faculdade preparados para o magistério. A formação dos docentes no Brasil é o problema crônico da educação brasileira, na opinião de especialistas.
Quase 70% dos professores estudaram apenas em escolas públicas e 50,9% vêm de famílias de baixa renda. O estudo, que abrange a realidade dos 2,6 milhões de professores do ensino básico no país, baseou-se em dados do IBGE e dos ministérios do Trabalho e da Educação. A conclusão é de que, apesar da expansão do ensino no Brasil, com ampliação do acesso a diversas faixas etárias, os professores e o ensino ainda estão em segundo lugar no plano das prioridades.
O magistério é reconhecido como carreira de prestígio em nações como Coreia do Sul e Dinamarca, mais bem vista até do que medicina, por exemplo. Na Dinamarca e Finlândia o salário inicial do professor não é menos do que 4 mil e 500 reais. Lá, os melhores alunos são recrutados para o magistério.
No Brasil, o magistério é visto como uma oportunidade para que estudantes de baixo poder aquisitivo ou menor escolarização possam chegar ao mercado de trabalho. Antes se dizia de forma jocosa: Se não sabe fazer nada, vá ser professor. Esse ditado infame foi atualizado para outro não menos desabonador. Se quer um emprego, mesmo ganhando mal, vá ser professor.
O estudo da Unesco aborda também a questão da formação do professor, que é muito inquietante e exige ações corretivas imediatas. A conclusão não é novidade para quem é íntimo da educação brasileira, mas vale a pena realçar. O estudo mostra que nos cursos de pedagogia, que formam os alfabetizadores, os professores da educação infantil praticamente não têm metodologia da alfabetização em seus currículos, nem práticas para introdução à matemática, às ciências humanas.
Segundo a professora Bernardete Gatti, o principal problema na formação dos professores é que em vários cursos de licenciatura se tem, quando muito, 10% de formação pedagógica. Assim, professores de matemática, português e ciências vão para a sala de aula sem formação adequada, porque os cursos que fizeram não tinham o objetivo de ensinar a ensinar. Se perdem nas teorias.
Com isso se explica o elevado número de analfabetos em crianças de 10 a 14 anos. E também porque temos uma qualidade tão ruim na educação, explica por que nossos alunos ficam em último lugar nos testes internacionais. Até nossos melhores alunos ficam abaixo da média internacional, pois não têm desafios. Os 10% dos melhores alunos brasileiros têm desempenho inferior aos piores alunos da Finlândia.
Por todos esses motivos, defendemos mais investimento na educação. Pelo menos 10% do PIB devem ser destinados à educação dos brasileiros. Com isso, podemos voltar a valorizar os professores tanto no aspecto salarial, como em capacitação e também em prestígio social. Afinal, são eles que cuidam da educação dos nossos filhos. Do futuro de nosso país.
José Teodoro Soares -
Deputado estadual
Sr. Deputado, muito prazer!
ResponderExcluirParabéns pelo seu texto! Contudo preciso fazer algumas considerações a respeito dele.
A falta de valorização da Educação, do professor e os baixos salários deles são muito antigos, no mundo. A extraordinária escritora e professora francesa Simone de Beauvoir, no seu livro autobriográfico, já dizia que só resolveu os seus problemas capitais, depois que passou a ganhar dinheiro com as vendas dos seus livros.
No mundo, para a maioria dos políticos, quanto menos letramento e despolitização do povo, maior o poder de massa-de-manobra dele.
No caso do Brasil, ainda acho muito pouco a sugestão do Senhor, de 10% do PIB para a Educação. Deveria ser, pelo menos, 20% dele, pois, através da Educação, de atividades culturais e esportivas para crianças, jovens e adultos, teríamos a solução para muitos dos problemas do nosso País, sobretudo a fome, a violência, as drogas e o tráfico delas, dentre outros...
Já disseram que:
"O desenvolvimento de um país depende da cultura do seu povo".
Com todo o respeito, não adianta tão-somente retratar a miséria da Educação e do professor, mas urgentemente tomar atitudes de fazer algo essencial, concreto e abraçar essa causa, com vontade política.
Por que o Senhor, como deputado, não faz um projeto para a reformulação do já falido Sistema Educacional Brasileiro, aproveita a oportunidade para pedir aumento de salário para os professores e leva ao plenário? Quem sabe, essa semente plantada, possa germinar?
Fica aqui a minha sugestão.
Atenciosamente,
Graça Bezerra.