ESCOLA NA MÍDIA
Em excelente entrevista a Thiago Camelo a Bióloga, Professora, tuiteira e blogueira TATIANA NAHAS.
Ela conta como criou o blogue 'Ciência na mídia', uma das referências em divulgação científica na internet e fala da sua experiência com educação que ajuda também a mapear o que de mais interessante tem sido feito no ensino de ciências.
O que um professor pode ser hoje em dia? O que um cientista pode ser hoje em dia? As possibilidades são tantas, como sempre. Mas há ferramentas atuais que permitem respostas diferentes da do passado. Porque em 2010 já não soa estranho chamar um professor de blogueiro, ou de tuiteiro. E há vários na rede.
Uma blogueira, tuiteira, bióloga – e professora de ensino médio– é Tatiana Nahas. Aos 34 anos, ela cuida da página Ciência na mídia, que, nas suas palavras, "propõe um olhar analítico sobre como a ciência e o cientista são representados na mídia". Com pouco tempo de internet (apenas dois anos), o blogue de Tatiana já se tornou referência do assunto no país.
Mas, como acontece com a maioria dos blogues, o portal de Tatiana não se resume ao mapeamento de como a ciência aparece na mídia. Aos poucos, a bióloga – blogueira, tuiteira e professora – voltou-se à área que tem especial apreço: a educação. O mote da conversa com Tatiana foi esse. Durante a entrevista, ela aponta os principais locais em que busca informação na rede, conta como vê o ensino de ciências no Brasil e explica a experiência com os alunos e as novas mídias. E mais, diz que a única profissão em que deseja formar o estudante é: "editor do mundo".
CH On-line: Como você começou o seu blogue?
Tatiana Nahas: Comecei em um momento de pausa na minha vida profissional. Eu havia optado por deixar o trabalho de pesquisa clínica da indústria farmacêutica, no qual estava envolvida havia quatro anos, para retomar meu rumo na área de ensino e divulgação da ciência. Nesse período de correção de rota e acerto de contas comigo mesma, achei que o melhor começo para a nova fase profissional seria começar a escrever um blogue. Em primeiro lugar porque gosto muito de escrever, acho que é a linguagem que melhor domino. Em segundo lugar pela curiosidade em experimentar uma ferramenta nova para mim.
O blogue começou de uma forma bem tímida e com uma cara um pouco diferente da que tem hoje. Aos poucos fui encontrando meu tom e me permitindo ser menos formal, como requer uma comunicação via blogue. Hoje sou completamente apaixonada por essa mídia, especialmente pela facilidade de uso da ferramenta e pela possibilidade de interação que propicia.
É perceptível que seu blogue dá destaque, cada vez mais, à educação e ao ensino de ciência.
"Eu não dissocio sobremaneira pesquisa de ensino. E nem de divulgação científica"
Na verdade, é uma retomada a essa direção. Eu já tinha um histórico de trabalho em projetos educacionais diversos. Então acho que, conforme fui me sentindo mais à vontade no meu próprio blogue, fui me metendo mais naquilo que me é mais interessante. E isso coincidiu também com os trabalhos de elaboração de materiais didáticos de ciências que venho fazendo há dois anos. Mas, mais que isso tudo, acho que antes ainda vem o fato de que não dissocio sobremaneira pesquisa de ensino. E nem de divulgação científica.
Onde você costuma se informar sobre as novidades no campo da educação? Você poderia dar dicas de portais, blogues e outras publicações?
Confesso que leio pouco sobre educação em geral. Algumas poucas produções da Unesco e uma ou outra leitura pontual, geralmente fruto de indicações de colegas. E sempre me interesso por proposições que fujam um pouco daquelas preocupações mais tradicionais sobre o ensino, como a forma de avaliar, a questão da disciplina etc.. Nesse sentido, uma feliz descoberta recente minha foi o projeto NeuroEduca, da UFMG, que me parece ter uma concepção bastante interessante.
O grosso das minhas leituras sobre educação está em materiais de educação em ciências especificamente. Aí considero as edições da revista Science in School fantásticas. E estou sempre à caça dos chamados objetos virtuais de educação. A Rived e o EducaRede são excelentes. O pontociência também tem materiais ótimos. E leio muitos blogues e diversas revistas online sobre ciências, como a Pesquisa Fapesp, a Unesp Ciência, o Science Blogs, o ScienceBlogs Brasil e o blogue da Miriam Salles. Também comecei a acompanhar o recém-criado Ciensinando.
As universidades brasileiras pouco a pouco vêm acordando para o papel que devem cumprir nessa área e finalmente temos alguns bons materiais, seja para formação teórica do professor, sejam dicas de objetos educacionais para uso em sala de aula. Alguns exemplos são o Formar ciências e o Geenf. Mas outras instituições que estão na interface entre ensino e divulgação da ciência apresentam uma oferta ainda maior e, muitas vezes, de melhor qualidade. É o caso do Museu da Vida, por exemplo.
Como você leva a sua experiência na rede e com novas tecnologias para os seus alunos?
"Nas aulas, eu não faço nenhuma separação entre o que está relacionado a novas tecnologias e o que não está"
Eu não faço nenhuma separação que fique nítida entre o que está relacionado a novas tecnologias e o que não está. Simplesmente ora estamos usando um livro, ora os alunos estão criando objetos de aprendizagem relacionados a determinado conteúdo, como jogos.
Um exemplo do que quero dizer: outro dia estávamos em uma aula de microscopia no laboratório de biologia. Os alunos viram o microscópio, aprenderam a manipulá-lo, conheceram um pouco sobre a história dos estudos citológicos caminhando em paralelo com a história do desenvolvimento dos equipamentos ópticos etc. Em dado ponto da aula, tinham que resolver o problema de como estimar o tamanho das células que observavam. Contas feitas, discussão encaminhada, passamos para a projeção de uma ferramenta da internet fantástica para compreensão de escala. É uma ferramenta desenvolvida para a internet por um grupo da Universidade de Utah e da qual tomei conhecimento via o blogue Brontossauros em meu jardim, do biólogo Carlos Hotta. Foi um complemento perfeito para a aula. Os alunos não só adoraram, como tiveram a possibilidade de visualizar diferentes células, objetos, estruturas e átomos de forma comparativa, interativa, divertida e extremamente clara. Por melhor que fosse a aula, não teria conseguido o alcance que essa ferramenta propiciou. Mas essa ferramenta tornou-se parte da aula, então a aula foi boa e interessante. Ou seja, não estou competindo com esses recursos e nem usando-os como muleta. Esses recursos são exatamente o que o nome diz: recursos. E facilitam tanto...
Uma pergunta recorrente: neste novo mundo, em que a informação está muito mais próxima de todos, a escola do modo como é, estruturada do modo como é, faz sentido?
"A inserção de novas mídias na escola tem que fazer parte da educação porque faz parte do mundo, simples assim"
Essa é uma pergunta bastante difícil de responder. Porque muita gente pode dizer que 'não' e apontar diversos equívocos. Mas onde estão as proposições para um modelo melhor? Eu não gosto muito de apontar as falhas sem oferecer sugestões de melhoria. E, nesse caso, eu não concebi nenhum modelo que considere mais próximo do ideal para propor. De qualquer forma, não acho que seja uma questão de derrubar essa estrutura e fazer outra completamente diferente. Acho que, no geral, construímos um bom modelo. Somos é receosos de sair de nossa zona de conforto para incluir pequenas mudanças nesse modelo. Como a tão discutida questão da inserção das novas mídias na escola. Eu não acho que isso seja uma escolha do professor ou da escola. Tem que fazer parte da educação porque faz parte do mundo, simples assim.
"Ah, mas e o monte de bobagens que encontramos na internet? Bom, mas há um monte de bobagens também nos jornais, nos livros e em outros meios 'mais consolidados'"
Ah, mas e o monte de bobagens que encontramos na internet? Bom, mas há um monte de bobagens também nos jornais, nos livros e em outros meios 'mais consolidados'. Há um monte de bobagens mesmo nos livros didáticos. A questão está no que deve ser o foco da educação: o conteúdo puro e simples ou as habilidades de relacionar, de interpretar, de extrapolar, de criar etc? Você pode usar alguns conteúdos das diversas áreas do conhecimento como ponto de partida para isso, mas acho que o objetivo final deve ser formar o aluno em uma 'profissão': editor do mundo. Nesse caso, a escola 'tradicional' não compete com as informações mais próximas de todos de forma alguma. Ela caminha lado a lado com essas informações e prepara o aluno para lê-las, compreendê-las, relacioná-las, questioná-las e para criar novos conhecimentos.
Você acha que é necessário mudar muita coisa no ensino de ciências, especificamente?
Tenho a impressão de que os problemas que temos no ensino de ciências hoje ainda são muito similares aos problemas que tínhamos na época em que eu era aluna de ginásio, hoje chamado ensino fundamental. Ou seja, estamos caminhando muito lentamente nos últimos 15, 20 anos. Isso para não dizer que muitas vezes estamos andando em círculos... É claro que é difícil generalizar em termos de país, porque há muitas diferenças.
"No ensino de ciências, há o completo esquecimento da história da ciência"
Mas procurando uma média nesse panorama, eu diria que há duas principais falhas no nosso ensino de ciências. Uma reside no quase completo esquecimento da história da ciência na sala de aula, o que faz com que os alunos desenvolvam a noção de que ideias e teorias surgem repentinamente e prontas na mente dos cientistas. Agora estou tendo a oportunidade de trabalhar no ensino médio de biologia junto com um professor que é um raro exemplo nesse quesito e posso perceber empiricamente a diferença que faz para compreensão dos alunos sobre os conceitos. É fantástico!
Outra falha que vejo está no fato de que pouco se exercita o método científico ao ensinar ciências. Não dá para esperar que o aluno entenda o modus operandi da ciência sem mostrar o método científico e o processo de pesquisa, incluindo os percalços inerentes a uma investigação científica. Sem mostrar a construção coletiva da ciência. Sem mostrar que a controvérsia faz parte do processo de construção do conhecimento científico e que há muito desenvolvimento na ciência a partir dessas controvérsias. Caso contrário, teremos alunos que farão coro com a média da população que se queixa, ao ouvir notícias de jornal, que os cientistas não se resolvem e uma hora dizem que manteiga faz bem e outra hora dizem que manteiga faz mal. Ou seja, já temos alguns meios de divulgação que não compreendem o funcionamento da ciência e a divulgam de maneira equivocada. Vamos também formar leitores acríticos?
Qual é o conselho para o professor de hoje?
Não creio que tenha experiência suficiente para oferecer conselhos. Partindo de observações ao longo da pouca prática que tenho do cotidiano de sala de aula, por enquanto a única coisa que diria é para que os professores se esforçassem em introduzir mais as linguagens midiáticas na sala de aula. Seja das consideradas mídias tradicionais, como jornais, revistas e filmes, seja das chamadas novas mídias, como os blogues. Os blogues são um caso nítido de preconceito por parte dos professores. Mais que considerá-los 'diários de menininhas', muitos professores não os consideram confiáveis. Mas eu sou da opinião de que isso faz parte também da educação: auxiliar seus alunos no processo de edição do mundo, de aprender a identificar o que é confiável ou não, correto ou não, útil ou não para aquele determinado objetivo... E não simplesmente riscar blogues da lista de possibilidades de pesquisa.
Thiago Camelo
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